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⛵ Mistérios · Unsolved

Mary Celeste

Em dezembro de 1872 o brigue Mary Celeste foi achado à vela perto dos Açores, com carga intacta e ninguém a bordo; Gibraltar nunca estabeleceu por que dez pessoas tinham partido.

Also called: Marie Celeste · brigue abandonado

Pintura oitocentista do brigue Mary Celeste à vela
Unconfirmed, possibly Honore Pellegrin (1800–c.1870). This speculative attribution is suggested in Paul Begg: Mary Celeste: The Greatest Mystery of the Sea . Longmans Education Ltd, Harlow (UK) 2007. Plate 2 · Public domain · Wikimedia Commons

O Mary Celeste, brigue construído no Canadá e então sob propriedade americana, saiu de Nova Iorque em 7 de novembro de 1872 rumo a Génova com uma carga de 1.701 barris de álcool desnaturado. O comandante era o capitão Benjamin Spooner Briggs. Com ele viajavam a mulher, Sarah Elizabeth Briggs, a filha de dois anos Sophia Matilda e uma tripulação de sete. A última entrada na lousa do diário de bordo datava de 25 de novembro, quando o navio estava perto da ilha de Santa Maria, nos Açores.

Em 4 de dezembro de 1872 — 5 de dezembro segundo alguns relógios de convés — o brigue britânico Dei Gratia, capitão David Morehouse, avistou um navio sob vela parcial a várias centenas de milhas a leste dos Açores. O imediato Oliver Deveau embarcou e achou o Mary Celeste abandonado: ninguém no convés nem abaixo, o bote ou iate pequeno em falta, efeitos pessoais e a maior parte da carga ainda ali, e um casco ainda navegável o bastante para ser levado a Gibraltar. Os homens do Dei Gratia trouxeram-no como salvamento.

Uma audiência de salvamento do Vice-Almirantado abriu-se em Gibraltar sob o attorney-general Frederick Solly-Flood. O tribunal pagou um prémio de salvamento, mas nunca achou causa para o abandono. Teorias — vapor de álcool, um seiche ou tromba-d'água, o receio de uma explosão, um bote perdido num mar que subia — permanecem por provar. A ficção de Arthur Conan Doyle de 1884, «J. Habakuk Jephson’s Statement», rebatizou o navio Marie Celeste e ensinou aos leitores um conto de fantasmas que o dossiê de salvamento não sustenta.

Achado4–5 dez 1872
NavioBrigue
ComandanteBenjamin S. Briggs
DescobridorDei Gratia
AudiênciaGibraltar, 1873
EstadoSem solução

Dossier scores

829428452280
  • Notoriety 82
  • Mystery 94
  • Scale 28
  • Evidence 45
  • Legal impact 22
  • Culture 80
Notoriety
82
Mystery
94
Scale
28
Evidence
45
Legal impact
22
Culture
80

Um navio vazio, um processo cheio

O Mary Celeste é o derrelicto-tipo: um brigue abordado, um bote em falta, um jurista suspeitoso e um século de histórias que acrescentaram piratas que Conan Doyle nunca achou no papel de Gibraltar.

O que o Dei Gratia de facto achou

As notas de abordagem de Deveau, lidas depois em tribunal, descreveram um navio que ainda podia ser esgotado e navegado. As velas estavam dispostas de modo desordenado. O adriça do pico grande estava partido. Havia água no porão, não o bastante no testemunho de salvamento para explicar por si um pânico. O cronómetro, o sextante e alguns papéis faltavam; o diário de bordo permanecia. Nove dos barris de álcool foram depois dados como vazios ou a vazar.

As pessoas tinham partido. Comida e pertences sugeriam que não se tinham arrumado para uma partida longa. O bote em falta é o facto físico central. Seja o que temiam, deixaram um navio que chegou a Gibraltar sob uma tripulação de prémio. Esse desajuste — um navio habitável e um convés vazio — é o mistério que o tribunal não conseguiu fechar.

Gibraltar e Solly-Flood

Frederick Solly-Flood, attorney-general em Gibraltar, tratou o derrelicto como possível crime: motim, homicídio ou um naufrágio encenado para o seguro. Mandou examinar o casco, incluindo cortes na proa que peritos mais tarde julgaram antigos ou ordinários. Suspeitou dos homens do Dei Gratia. O tribunal, reunido no início de 1873, não adotou uma teoria de homicídio. Atribuiu salvamento — uma soma reduzida que ainda reconhecia o risco de Morehouse — e deixou o desaparecimento sem explicação.

O capitão Briggs tinha reputação de comandante cuidadoso e sóbrio. A lista da tripulação nomeava alemães experientes entre os marinheiros. Nada no papel sobrevivente mostra uma desavença documentada. A suspeita de Solly-Flood faz parte do dossiê; não é um achado. Leitores em português encontram por vezes as suas dúvidas como se fossem prova. Não o eram.

A ficção que rebatizou o navio

Conan Doyle, então um jovem médico, publicou «J. Habakuk Jephson’s Statement» na Cornhill Magazine em 1884. Chamou ao brigue Marie Celeste, acrescentou um bote evanescente de melodrama racial e um passageiro conspirador, e fixou um molde que revistas posteriores copiaram. A audiência real de salvamento não tinha tal passageiro nem tal enredo.

O português popular posterior — de almanaques a rádio do século XX — conservou Marie e a ideia de uma refeição ainda quente na mesa. O testemunho de abordagem não descreve um jantar encenado. O pormenor da refeição quente é folclore. Historiadores que voltam às deposições de Gibraltar, nomeadamente o estudo de Charles Edey Fay de 1942, têm de desensinar o conto antes de poderem ensinar a lousa do diário.

Fim do navio, não do argumento

O próprio Mary Celeste naufragou em 1885 no recife Rochelais, ao largo do Haiti, sob o capitão Gilman C. Parker, numa perda que as seguradoras trataram como suspeita. Esse naufrágio posterior é um episódio comercial separado. Não explica 1872.

A escrita séria posterior favoreceu um abandono acidental: o receio de explosão por vapor de álcool, uma sondagem que parecia mostrar um vazamento catastrófico, um bote amarrado que depois se soltou. Cada versão encaixa alguns factos e força outros. Sem solução permanece o estado correto. Nenhum tribunal nomeou um assassino nem o desembarque de um bote sobrevivente.

Seven chapters

Perguntas frequentes

O que era o Mary Celeste?
Um brigue construído em 1861 em Spencer’s Island, Nova Escócia, originalmente chamado Amazon, depois de propriedade americana. Em 1872 transportava álcool desnaturado de Nova Iorque rumo a Génova sob o capitão Benjamin Spooner Briggs.
Quando e onde foi achado abandonado?
O Dei Gratia avistou-o em 4–5 de dezembro de 1872 no Atlântico a leste dos Açores. A última entrada na lousa do diário foi em 25 de novembro perto de Santa Maria. Ninguém estava a bordo. O bote pequeno faltava.
Quem deveria estar a bordo?
Dez pessoas: Briggs, a mulher Sarah, a filha Sophia e sete tripulantes. Nenhuma foi achada. Nenhum desembarque verificado do bote foi alguma vez registado.
A carga e o navio pareciam saqueados?
A maior parte dos 1.701 barris de álcool ainda estava ali; alguns estavam vazios ou a vazar. Efeitos pessoais permaneceram. O casco foi navegado até Gibraltar. Isso não é o quadro de um prémio espoliado.
O que decidiu o tribunal de Gibraltar?
O tribunal do Vice-Almirantado em 1873 concedeu salvamento ao Dei Gratia numa cifra reduzida e não achou homicídio, motim nem uma causa provada de abandono. As suspeitas do attorney-general Solly-Flood não foram adotadas como veredicto.
Por que o navio é por vezes chamado Marie Celeste?
O conto de Arthur Conan Doyle de 1884 usou Marie Celeste. O nome registado era Mary Celeste. A memória popular em português, via traduções, conserva muitas vezes a grafia de Doyle.
Há uma explicação aceite?
Não. O receio de vapor de álcool, uma impressão falsa de naufrágio, o tempo e um bote perdido são as explicações mais oferecidas por historiadores posteriores. Nenhuma está provada. O estado é sem solução.
O que aconteceu ao navio mais tarde?
O Mary Celeste naufragou em 1885 no recife Rochelais, Haiti. As seguradoras suspeitaram de um encalhe deliberado sob um comandante posterior. Esse evento não resolve o abandono de 1872.

Enciclopédia de registro público. Não é aconselhamento jurídico nem tutorial. Guerras ficam noutro atlas.

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