🏀História

Basquete · Cinco jogadores, 24 segundos e geometria em velocidade máxima — o jogo de rua que conquistou o mundo.

A história do basquete é incomumente legível porque o esporte foi projetado, não evoluiu por acaso. As 13 regras originais de Naismith, de 1891, já continham o DNA do jogo — nada de correr com a bola, nada de contato, um alvo elevado acima dos jogadores — e quase tudo desde então tem sido uma discussão sobre ritmo. O relógio de posse de 1954, a linha de três pontos de 1979, a legalização da zona em 2001 e o combate ao hand-checking em 2004 foram todas intervenções para tornar o jogo mais rápido, mais aberto e mais atraente de assistir.

O outro fio condutor é a tensão entre o jogo profissional americano e o internacional. O basquete entrou nas Olimpíadas em 1936, a FIBA é 14 anos mais antiga que a NBA, e os momentos mais importantes de virada do esporte — o Dream Team em 1992, o ouro da Argentina em 2004, a sequência de MVPs internacionais iniciada em 2019 — acompanham a erosão constante do excepcionalismo americano. O que começou num ginásio de Massachusetts hoje é um esporte cujo melhor jogador em qualquer ano tem tantas chances de vir de Sombor ou de Akwa quanto de Akron.

Linha do tempo

1891Naismith inventa o jogo

James Naismith afixa 13 regras na Escola de Treinamento da YMCA de Springfield e prega cestos de pêssego nas grades da sacada, a três metros de altura. O primeiro jogo, com nove por lado, termina 1 a 0 com a única cesta de William Chase.

1936Estreia olímpica em Berlim

O basquete se torna esporte olímpico, disputado ao ar livre em quadras de terra. Os EUA batem o Canadá por 19 a 8 numa final debaixo de chuva; Naismith, aos 74 anos, comparece e realiza o salto de bola cerimonial de abertura.

1946A BAA começa

A Basketball Association of America — antecessora direta da NBA — disputa seu primeiro jogo em 1º de novembro: New York Knickerbockers 68, Toronto Huskies 66, no Maple Leaf Gardens.

1949Nasce a NBA

A BAA absorve a rival National Basketball League e se renomeia National Basketball Association, uma colcha de retalhos de 17 times que ia de Nova York a Sheboygan.

1950A barreira racial cai

Chuck Cooper se torna o primeiro jogador negro selecionado no draft, Nat Sweetwater Clifton o primeiro contratado, e Earl Lloyd o primeiro a atuar num jogo da NBA, em 31 de outubro de 1950.

1954O relógio de 24 segundos

Após um notório jogo travado de 19 a 18 em 1950, o dono do Syracuse, Danny Biasone, impõe o relógio de 24 segundos. A pontuação sobe cerca de 14 pontos por jogo e começa o esporte moderno.

1962Wilt marca 100 pontos

Em 2 de março, em Hershey, Pensilvânia, Wilt Chamberlain marca 100 pontos na vitória do Philadelphia por 169 a 147 sobre o New York, acertando 36 de 63 arremessos — numa temporada em que tem média de 50,4 pontos.

1966Texas Western muda o basquete universitário

O Texas Western escala cinco jogadores negros como titulares e vence o Kentucky, totalmente branco, de Adolph Rupp, por 72 a 65 pelo título da NCAA, acelerando a integração dos programas universitários do Sul.

1976Fusão ABA–NBA

A rebelde ABA se funde à NBA, trazendo Nets, Nuggets, Pacers e Spurs — além de Julius Erving, o concurso de enterradas e o futuro modelo da linha de três pontos.

1979Magic, Bird e o arco

A NBA adota a linha de três pontos para 1979–80, mesmo ano em que Magic Johnson e Larry Bird chegam à liga após a final da NCAA de 1979 — ainda o jogo universitário mais assistido da história.

1984Stern e Jordan chegam

David Stern se torna comissário em fevereiro; em junho, Michael Jordan é escolhido em terceiro no draft, atrás de Hakeem Olajuwon e Sam Bowie. Segue-se a explosão comercial da liga.

1992O Dream Team

O primeiro time olímpico americano formado por profissionais da NBA vence em Barcelona com margem média de 43,8 pontos, batendo a Croácia por 117 a 85 na final e detonando o boom global do basquete.

1997A WNBA começa

Fundada pela NBA em 1996, a WNBA disputa seu primeiro jogo em 21 de junho de 1997, tornando-se a liga profissional feminina mais duradoura entre os esportes coletivos americanos.

2004Argentina conquista o ouro, regras mudam

A Geração Dourada argentina vence os EUA na semifinal de Atenas e conquista o ouro olímpico; no mesmo ano, o combate da NBA ao hand-checking liberta o ataque de perímetro.

2016Curry é MVP unânime, Cleveland vira o jogo

Stephen Curry se torna o primeiro MVP unânime após acertar um recorde de 402 arremessos de três pontos por um Golden State de 73–9 — que depois perde as finais para o Cleveland após estar 3 a 1 na vantagem, encerrada pelo bloqueio de perseguição de LeBron James no Jogo 7.

2019Primeiro campeão fora dos EUA

O Toronto Raptors vence o Golden State em seis jogos com Kawhi Leonard, tornando-se a primeira franquia não americana a conquistar o título da NBA.

2024O jogo feminino explode

Caitlin Clark termina com 3.951 pontos, o recorde histórico de pontuação da Divisão I da NCAA, e a final feminina tem média de 18,9 milhões de espectadores — quatro milhões a mais que a masculina.

2025Oklahoma City e a era internacional

Shai Gilgeous-Alexander é eleito MVP e MVP das finais quando o Thunder vence o Jogo 7 sobre o Indiana — a sétima temporada consecutiva de MVP para um jogador nascido fora dos EUA, e o sétimo campeão diferente em sete anos.

As eras

1891–1945

Invenção e a Era das Excursões

O primeiro meio século do basquete foi caótico e empreendedor. A rede da YMCA levou as regras de Naismith pelos Estados Unidos e ao exterior em menos de uma década — o jogo chegou à China já em 1896 — enquanto a versão profissional se fragmentava em ligas regionais efêmeras, onde jogadores vendiam seus serviços partida a partida. As quadras muitas vezes eram cercadas por telas de arame para separar jogadores de apostadores, razão pela qual os cronistas antigos chamavam os atletas de 'engaiolados'. As grandes equipes itinerantes definiram a era: o Original Celtics sistematizou o jogo de pivô e a defesa individual com troca; o New York Renaissance, formado só por negros, venceu 88 jogos seguidos em 1933 e batia as melhores equipes brancas da época; o Harlem Globetrotters, fundado em 1926, foi uma potência competitiva legítima muito antes de virar espetáculo de entretenimento, vencendo o Torneio Mundial de Basquete Profissional em 1940. A estrutura institucional chegou tarde: a FIBA se formou em 1932, o basquete entrou nas Olimpíadas em Berlim em 1936, e a NCAA disputou seu primeiro torneio de oito times em 1939, vencido pelo Oregon. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, o esporte tinha tudo, exceto uma liga profissional grande e estável.

1946–1969

A NBA Toma Forma e o Reinado de Russell

A Basketball Association of America surgiu em 1946 como um plano de donos de arenas para preencher datas entre jogos de hóquei, e se fundiu à National Basketball League em 1949 para formar a NBA. A jovem liga quase se estrangulou com jogos travados — a infame vitória do Fort Wayne por 19 a 18 sobre o Minneapolis Lakers em 1950 foi o ponto mais baixo — até que o relógio de 24 segundos de Danny Biasone chegou em 1954 e casou definitivamente o basquete ao ritmo. Os Lakers de George Mikan formaram a primeira dinastia, com cinco títulos entre 1949 e 1954, mas a era pertence a Bill Russell, que chegou a Boston em 1956 e venceu 11 campeonatos em 13 temporadas, revolucionando o esporte com tocos, rotação defensiva e contra-ataques disparados por bolas de saída. Sua rivalidade com Wilt Chamberlain — que teve a inconcebível média de 50,4 pontos em 1961–62 e marcou 100 numa partida — moldou o primeiro grande debate do basquete: dominância individual versus arquitetura de equipe. As equipes de Russell venceram Chamberlain por 7 a 1 em séries de playoffs. A era também carregou o peso e o progresso da integração racial, desde os pioneiros de 1950 até Russell se tornar o primeiro técnico principal negro dos grandes esportes profissionais americanos, em 1966.

1970–1983

O Estilo da ABA e os Tempos Difíceis

A recém-criada American Basketball Association, lançada em 1967 com uma bola vermelha, branca e azul, passou nove temporadas arrastando o basquete rumo ao seu futuro: introduziu a linha de três pontos, promoveu o primeiro concurso de enterradas em 1976 e revelou Julius Erving, cuja improvisação acima do aro redefiniu o que o jogo de ala podia ser. A fusão de 1976 incorporou quatro franquias da ABA — Nets, Nuggets, Pacers e Spurs — à NBA e injetou o atletismo da liga rebelde no establishment. Ainda assim, a NBA do fim dos anos 1970 era comercialmente frágil: o público caía, escândalos de drogas dominavam a cobertura, e a CBS exibia as finais de 1980 e 1981 em fita gravada, depois do noticiário local da noite. O produto em quadra permanecia excelente — os Knicks de Willis Reed venceram títulos cerebrais em 1970 e 1973, o gancho de Kareem Abdul-Jabbar se tornou a arma mais confiável da história do esporte, e o Blazers de Bill Walton em 1977 jogava um basquete coletivo belíssimo — mas a liga precisava de estrelas capazes de sustentar uma narrativa. Conseguiu-as em outubro de 1979, quando Magic Johnson e Larry Bird entraram na liga uma temporada após sua histórica final da NCAA, reacendendo de imediato a rivalidade Lakers-Celtics que salvaria o esporte.

1984–1998

Os Anos de Ouro: Magic, Bird e Jordan

David Stern assumiu como comissário em fevereiro de 1984 e industrializou a liga: um teto salarial naquele mesmo ano, licenciamento agressivo, parcerias a cabo e um modelo de marketing centrado em estrelas, emprestado de Hollywood. Ele recebeu material bruto extraordinário. Magic e Bird se enfrentaram em três finais entre 1984 e 1987, restaurando o eixo Lakers-Celtics; Michael Jordan, terceira escolha do draft de 1984, evoluiu de fenômeno de pontuação — dez artilharias, média de 37,1 pontos em 1986–87 — para o vencedor supremo do esporte, uma vez que Phil Jackson e o ataque de triângulo de Tex Winter o canalizaram. Os Bulls de Jordan venceram dois tricampeonatos, 1991–93 e 1996–98, separados por sua pausa no beisebol, com retrospecto de 6 a 0 nas finais e Jordan levando os seis prêmios de MVP das finais. A temporada de 72–10 de 1995–96 foi referência de temporada regular por duas décadas. Enquanto isso, o Dream Team de 1992 — Jordan, Magic, Bird e outros oito futuros membros do Hall da Fama — conquistou o ouro olímpico em Barcelona com média de 43,8 pontos de margem e fez mais pela globalização do esporte do que qualquer outro evento antes ou depois. As crianças que assistiam na Alemanha, na Argentina e na China se tornaram a geração que acabaria vencendo os americanos.

1999–2013

Globalização e a Rotina Dura

A década pós-Jordan começou com um lockout e um marasmo: a pontuação chegou ao fundo, perto de 91 pontos por jogo, em 1998–99, enquanto reinava uma defesa física de hand-checking. A liga respondeu com cirurgia estrutural — a zona foi legalizada com a regra dos três segundos defensivos em 2001–02, o hand-checking foi de fato fiscalizado a partir de 2004–05 — reabrindo o perímetro. Em quadra, Shaquille O'Neal e Kobe Bryant formaram um tricampeonato de 2000 a 2002, enquanto os Spurs de Gregg Popovich construíam a dinastia silenciosa da era, apoiada em Tim Duncan, defesa e, depois, na movimentação de bola do 'jogo bonito' que atingiu seu ápice nas finais de 2014. A globalização virou realidade de elenco: Dirk Nowitzki se tornou o primeiro MVP europeu em 2007, a escolha de Yao Ming como primeiro do draft em 2002 abriu a China, e a Argentina de Manu Ginóbili venceu os EUA nas Olimpíadas de 2004, forçando a criação do 'Redeem Team'. A era terminou com a 'Decision' de LeBron James em 2010 — o momento em que o empoderamento dos jogadores se tornou explícito — e com a discreta instalação das câmeras de rastreamento SportVU em toda a liga, em 2013, a infraestrutura analítica que logo reorganizaria a geometria do esporte.

2014–presente

Ritmo, Espaço e a Era dos Três Pontos

Stephen Curry quebrou o modelo de precificação do esporte. Seus Warriors venceram em 2015, tiveram campanha de 73–9 em 2016 com Curry acertando um recorde de 402 arremessos de três e sendo eleito MVP por unanimidade, e conquistaram quatro títulos até 2022 — prova de que uma equipe construída sobre gravidade de arremesso, movimentação sem bola e defesa com troca podia dominar. A liga se reprecificou de acordo: as tentativas de três pontos por equipe praticamente dobraram, de 18 por jogo em 2010–11 para mais de 37 em 2024–25, o volume de média distância desabou, exceto entre arremessadores de elite, e os índices ofensivos atingiram máximas históricas. A filosofia de montagem de elenco também mudou, da continuidade para a montagem de superequipes e depois para as punitivas regras do segundo teto salarial do CBA de 2023, e a paridade seguiu: sete campeões diferentes de 2019 a 2025 — Toronto, Lakers, Milwaukee, Golden State, Denver, Boston e Oklahoma City — a mais longa sequência assim na história da NBA. Acima de tudo, esta é a era internacional. Giannis Antetokounmpo, Nikola Jokić, Joel Embiid e Shai Gilgeous-Alexander venceram todos os MVPs de 2019 a 2025, Victor Wembanyama chegou em 2023 como a promessa mais aguardada desde LeBron, e a temporada de 2024–25 começou com 125 jogadores internacionais de 43 países nos elencos da NBA.

A lição constante da história do basquete é que o esporte avança quando suas regras perseguem a abertura. Toda reforma que definiu uma era — o relógio de posse, o arco, as mudanças na zona e no hand-checking — trocou uma prerrogativa defensiva por ritmo e habilidade, e todas foram resistidas antes de serem justificadas. Os debates atuais, sobre a saturação dos três pontos e o desgaste físico de um calendário de 82 jogos, são o mesmo argumento com roupagem nova. Enquanto isso, o centro de gravidade do jogo continua se afastando de Springfield: o próximo capítulo dessa história tem tantas chances de ser escrito em Paris, Belgrado ou Lagos quanto em Boston ou Los Angeles.

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